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UM HOMEM SENTADO NO MEU SOFÁ

Chego em casa e me deparo com um homem sentado no meu sofá. Devo admitir que não estava esperando por essa. É um senhor de oitenta e poucos anos, magriço, com os braços compridos, e todas as rugas do mundo no rosto. Ele usa uma camisa social branca de manga curta com um furo de cigarro na altura do peito e uma caneta Bic no bolso. Tem uns fios esparsos de cabelo branco, um queixo protuberante bem marcado, e uma boca pequena com um bigode ralo. No bigode estão os últimos resquícios de pelos cinzas, já esparsos e amarelados, provavelmente por anos de baforadas tabagistas.




Não tenho a sensação de risco de assalto. O homem não deve estar armado e, mesmo se estivesse, não teria força para puxar um gatilho. Fico confuso sobre como ele entrou na minha casa, já que a porta não estava arrombada e precisei usar a chave para entrar. Por sorte, moro sozinho. Cogito então ser uma emergência, alguém em busca de ajuda, um velho saído de um asilo ou um louco de um hospício. Mas o homem não parecia passar mal. A bem da verdade, parece apenas ignorar minha presença.


– Com licença – tento uma introdução respeitosa, devida à idade do invasor.


Ele fez que não era com ele.


– Senhor, com licença – uso um pouco mais de rispidez. – O senhor está no meu apartamento.

Mais precisamente, no meu sofá, caso não tenha percebido. Aconteceu alguma coisa?


Virando o rosto em minha direção, ele retira uns óculos do bolso da calça, franze os olhos e pigarreia. Depois solta o ar fazendo barulho. Um barulho meio cansado, de um ar que circulava com dificuldade pelas vias aéreas já meio entupidas.


– Senhor, tudo bem? – retomo.


O homem tira do outro bolso um pequeno livreto, que percebo se tratar de palavras cruzadas. Era Coquetel, nível médio. Do bolso da camisa, tira a Bic, retira a tampa e a devolve para o bolso. Ajeita os óculos, solta um novo pigarreio, aponta a caneta para o caderno, e me devolve.


– Prepara a terra para o plantio, três letras.


– Prepara a terra para o plantio?


– Sim, três letras, termina com A.


– Ara?


– Ara. Muito bem.

 

Até que não sou tão ruim – reflito.

 

– Mal educado, grosseiro. Nove letras.

 

– Hummm... Ríspido?

 

– Nove letras – repete sem muita paciência.

 

– Ignorante?

 

– Não encaixa. Começa com M.

 

– O senhor já deveria ter me dado a dica de início. Mal educado, grosseiro, nove letras, começando com M – repito. – Mal criado?

 

– Mal criado. Encaixa. Muito bem.

 

Ele faz as devidas anotações, pigarreia, e solta mais uma.

 

– Mesa para celebrações religiosas. Cinco letras.

 

Antes que me deixasse levar pelo desafio, procuro retomar o assunto.

 

– Senhor, depois posso até voltar a ajudá-lo. Mas seria bom se me explicasse o que fazes no meu apartamento.

 

Ele enrola o livreto e devolve para bolso da calça, assim como a Bic para o bolso da camisa.

 

– Vou levando a vida – responde, coçando a lateral do bigode com o mindinho.

 

– Entendo. E levando a vida no meu imóvel?

 

– Aí já não é minha culpa. Mas, aparentemente, sim.

 

– Como assim aparentemente sim? O que o senhor faz aqui? Como entrou?

 

– Faço palavras cruzadas. Sobre como entrei? É difícil explicar, meu jovem. Mas... veja bem... como posso dizer? – o senhor pigarreia e, em seguida, coça novamente o bigode. – Talvez você não entenda de primeira, mas agora moro aqui. Porém, não se preocupe, é por um tempo só. Sou tipo um eremita. Só que um eremita que não controla seu processo migratório. De tempos em tempos, sou deslocado para uma nova morada.

 

– Como assim tipo um eremita?

 

– É. Tipo um eremita. Quem sabe até um eremita da consciência.

 

– Eremita da consciência? Isso só pode ser piada. De mal gosto.

 

– Todos acham isso. Alguns ficam revoltados, tentam me enxotar, pedem para eu sair, mas acabo voltando sempre para o sofá da sala. Não preciso de chave, entende?

 

– O que você quer dizer? Que o senhor atravessa paredes?

 

– Claro que não – ri o velho uma risada cinza, carregada. Apoia as duas mãos no joelho enquanto ri, como se precisasse conter o próprio corpo para não desmoronar. – Claro que não atravesso paredes. Quer dizer, não sei dizer muito bem. Só sei que sou sempre enviado para o sofá da sala.

 

– Sei... E por quem?

 

– Não sei bem dizer. Mas acho que por Ele.

 

– Ele? Ele quem? Deus?

 

– Como você quiser chamar... eu chamo de Ele. Três letras. E maiúsculo. E, pelo que vi, aqui você tem dois quartos. Um para cada um. Ficaremos confortáveis. Vamos sim ter que dividir o banheiro, mas sou de hábitos noturnos. O serviço pesado faço na madrugada, não se preocupe. Eu como pouco, como você deve imaginar. Algumas folhas, um ou outro legume e deu. Ah, devo mencionar que adoro oleaginosas. Gosto de todas, mas sou fã de avelãs e castanha-do-pará. Se tiver dando sopa por aí, vou comer sem controle. Já me desculpo por antecedência.

 

– Não consigo acreditar – respondo perplexo.

O homem pigarreia, alonga as pernas, e se levanta fazendo um barulho horroroso, com diversos ossos estalando como se clamassem pela volta da cartilagem. Colocando a mão no meu ombro, ele me convida para sairmos juntos da casa. Vamos andando lentamente até a porta e saímos os dois. Com um gesto cansado, de quem já passou por isso inúmeras vezes, me orienta a chavear a porta. Passo a chave na porta e no trinco de cima. Ele se despede com um olhar sarcástico e desce pelo elevador.

Quando retorno para casa, lá está o homem no meu sofá, com o Coquetel aberto e a Bic descansando na orelha.

 

– Mesa para celebrações religiosas. Cinco letras.

 

– Altar?

 

– Altar. Muito bem!

 

Antes que ele passasse para a próxima, resolvo prosseguir:

 

– Ok. Entendi. Agora você mora aqui e vamos dividir o banheiro por um tempo. Por quanto tempo em média normalmente o senhor fica?

 

– Difícil dizer. Geralmente é pouco, entre dois e três meses. Mas já fiquei dois anos no apartamento de um rapaz viciado em jogos de azar. Ele frequentava mesas de poker e bingos clandestinos. Tinha dias que voltava cheio de dinheiro. Comprava McDonalds e contratava garotas de programa.

 

– E... com todo o respeito... o senhor participava da festa?

 

– Com as meninas não. Já estou velho demais para isso, meu rapaz. Mas me entupia de nuggets enquanto via o homem se divertir com as meninas. Ele não era, digamos, tímido. Adoro nuggets.

 

– Bom, entendi. Aviso que por aqui o movimento é mais lento. Nem garotas, menos ainda, nuggets. Gosto pedir comida japonesa e escutar boa música.

 

– Comida japonesa não como a parte crua. Mas vou aceitar os rolinhos primaveras. O que você chama de boa música? Jazz?

 

– Exato. Jazz.

 

– Bill Evans? Michel Petrucciani? Thelonious Monk?

 

– Todos eles. Aparentemente, você gosta dos pianistas.

 

– Com certeza. Mas aprecio os instrumentos de metal também. Coltrane, Getz, Parker.

  Comecei a refletir que não seria tão difícil dividir o apartamento com o Eremita da consciência.

 

E assim, os dias foram passando. De dia eu trabalhava. Pela noite, escutávamos jazz e jantávamos. Nas sextas, era dia de comida japonesa. Eu comia a parte crua, ele os rolinhos primaveras. Dois rolinhos de legumes eram suficientes. Um ele comia, o outro guardava para tomar de café da manhã gelado no dia seguinte. Comia com muito prazer. Quanto comprava oleaginosas, realmente não duravam muito, com exceção dos pistaches, já que ele tinha dificuldade para abrir a casca. Conversávamos sobre jazz e as dinâmicas da vida. Falávamos de sincronicidades e dávamos risada com as histórias que ele contava sobre as moradias passadas. Ela tinha algumas pérolas preciosas e sempre ria com as mãos no joelho, para não desmanchar. Todo o dia finalizávamos um livreto de palavras cruzadas. Com o passar do tempo, passamos do nível médio para o difícil. Não sei como ele comprava os livretos, já que nunca saia de casa, mas sei que sempre aparecia com um novo enrolado no bolso da calça bege.

 

Nossa convivência era suave e até agradável. A questão do banheiro, como ele bem adiantou, foi tranquila. Realmente era um homem de hábitos noturnos e silenciosos. Apesar de nunca trocar de roupa, era até bem higiênico e tinha cheiro de sabonete Phebo. Me contou que havia parado de fumar e que seu último cigarro havia sido o responsável pelo furo na camisa branca. Achava que não tinha mais responsabilidade para mexer com fogo e fumaça, devido à idade. Parecia ser muito auto consciente.

 

Um belo dia, cheguei em casa do trabalho e o eremita havia desaparecido. Sumiu sem deixar um único bilhete. Em nossas conversas, me contou que não tinha como precisar quando seria o último dia, e que isso o chateava. Que nem pressentimento de quando estava próximo de se mudar ele poderia sentir, já que tudo dependia da vontade Dele. Ele, com três letras e E maiúsculo. Falou que, por isso, vivia apenas o presente. E que se forçava a falar tudo que sentia e que precisava ser dito, pois não saberia se teria uma segunda oportunidade. Uma vez falou que me amava. Me amava como um filho, como um irmão, e que eu era uma criatura merecida de ter sido agraciada com o dom da vida. Que eu era bom e generoso. Que eu era feio, mas que minha personalidade me tornava mais bonito. E que eu não deveria me preocupar com isso. Repetiu que me amava, e que eu era uma criatura merecida de ter sido agraciada com o dom da vida, seja lá o que isso signifique.

 

Hoje, enquanto degusto comida japonesa ao som de Bill Evans, reflito sobre a falta que ele me faz. Sinto falta da nossa rotina, dos pigarros, da risada intensa que fazia o corpo chacoalhar e das palavras cruzadas. Sempre que chego em casa e destranco a porta, imagino a possibilidade de o Eremita da consciência ter voltado a coabitar o meu lar. O imagino no meu sofá com sua caneta Bic. Não lembro de ele ter comentado sobre a possibilidade de voltar para uma casa que já habitou. Mas, vai saber... acho que depende um pouco Dele. Ele, com três letras e E maiúsculo.

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